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quarta-feira, abril 01, 2015

OS PERIGOS DO EVANGELHO PRAGMÁTICO

INTRODUÇÃO                                                       
No tempo presente o pragmatismo é de longe um dos comportamentos mais em voga no ambiente social. Nesse contexto, a idea de que os resultados, a praticidade, a utilidade e a funcionabilidade são os melhores indicadores da verdade, e, conseqüentemente, da melhor maneira de se viver, estão a nortear o cotidiano das pessoas.
Para exemplificar, em Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C. S. Lewis, o diabo instrutor Fitafuso aconselha seu sobrinho e aprendiz, Vermebile, sobre como afastar uma pessoa da verdade do evangelho. Na primeira epístola, Fitafuso desenvolve a ideia de que os humanos são mais propensos a aceitar pensamentos que tenham aplicação prática em suas vidas, ao invés de avaliar a validade das mesmas.
Ele escreve: “Parta do princípio que sua vítima já se acostumou desde criança a ter uma dúzia de filosofias diferentes dançando em sua cabeça. Ele não usa o critério de “verdadeiro” ou “falso” para conferir cada doutrina que lhe apareça (seja do Inimigo ou nossa). Ao invés disso, ele verifica se a doutrina é “Acadêmica” ou “Prática”, “Antiquada” ou “Atual”, “Aceitável” ou “Cruel”. O jargão e a expressão feita (e não o argumento lógico) são seus melhores aliados para mantê-lo longe da Igreja. Não perca tempo tentando levá-lo a concluir que o Materialismo seja verdadeiro (sabemos que não é). Faça-o pensar que ele é Forte, Violento ou Corajoso – ou ainda, que é a Filosofia do Futuro! Este é o tipo de coisas que lhe despertarão a atenção”.
Francis Schaeffer, também, em 1976, quando escreveu How Should We Then Live (Como Viveremos?), chegou a afirmar que o pragmatismo era o pensamento dominante na época. Segundo ele, “tanto nos assuntos internacionais quanto no que diz respeito ao lar, o critério mais amplamente aceito é a conveniência – manter-se a paz pessoal e a prosperidade do momento a qualquer preço”. Identicamente, o inglês John Stott afirma que “no mundo moderno multiplicaram-se os pragmáticos, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer ideia não é: “É verdade?” “mas sim: “Será que funciona?”. (2001, p. 07).
Assim, é possível perceber as garras dessa doutrina sendo cravadas nas políticas públicas, na economia, na educação e até mesmo nas discussões judiciais. O ideário pragmático pode ser vislumbrado quando se coloca em debate assuntos como o aborto, drogas, pesquisas de células tronco, entre outros. Geralmente, quando esses assuntos são discutidos, a análise gira em torno dos benefícios imediatos que tais práticas podem trazer para o ser humano, sem se levar em conta valores morais e princípios éticos.
Teologia Pragmática Pós-moderna
No âmbito teológico o pragmatismo também vem ganhando espaço. Em A Sedução das Novas Teologias Silas Daniel descreve a forma como vários princípios da pós-modernidade estão invadindo as igrejas e afetando negativamente a Teologia. Ele cita um série de vertentes teológicas que foram criadas exatamente para atender as demandas do nosso tempo.
Em suas palavras, “entorpecidos por essas falsas necessidades que nos são impostas, muitos cristãos no Ocidente estão flexibilizando sua fé, mudando sua mentalidade em relação à Bíblia, à Igreja e à Deus, e isso, infelizmente, já está acontecendo também no Brasil. Esses cristãos, cujo número cresce cada vez mais, são os seguidores do que denominamos teologias pós-modernas, que nada mais são do que tentativas de adaptar o evangelho a essas ditas “demandas”, ou seja, aos princípios da pós-modernidade“.
Na esteira desse raciocínio, outra espécie de demanda da geração atual pode ser vista na busca do homem por algo espiritual que funcione e lhe traga benefícios imediatos. O pensamento religioso vigente funda-se na ideia de que para ser válida uma crença necessita invariavelmente ser prática, útil e que atenda todas as suas expectativas. Infelizmente, com o propósito de atender essa falsa necessidade muitos ministérios cristãos acabaram por se curvar ao anseio social, adotando o que podemos chamar de teologia pragmática, recheada de discursos e métodos orientados fundamentalmente para os resultados e para a felicidade imediata.
Noutros termos, muitos ministérios evangélicos enveredaram-se pelo caminho das estratégias de mercado para arrebanhar mais seguidores, ou aderiram ao movimento chamado “a igreja ao gosto do freguês” conforme denominou T. A. Mc Mahon; o que segundo ele tem invadido muitas denominações evangélicas, propondo evangelizar através da aplicação das últimas técnicas de marketing voltadas para os “consumidores espirituais”, enfatizando os benefícios temporais de ser cristão e colocando a pessoa do “consumidor” como seu principal ponto de interesse, cuja abordagem centra-se na gratificação imediata, nas bênçãos terrenas e no “sentir-se bem consigo mesmo”. Nesse compasso, as assim chamadas “megaigrejas” adicionam salas de boliche, quadras de basquete, salões de ginástica, auditórios para concertos e produções teatrais e franquias do Mc Donalds tudo para agradar os seus “clientes”.
Com isso, na liderança aparecem novos profetas / ungidos / visionários. Administradores de igreja, no lugar de pastores de ovelhas. Gerentes eclesiásticos, ao invés de servidores do próximo. Componentes de organizações ao invés de membros de um organismo. Personal Trainner Espiritual ao invés de ministros do evangelho. Gostam de números, não de vidas. Amam o status, não as almas.
Como visto, o pragmatismo é um dos paradigmas nesta geração pós-moderna, inserindo-se inclusive no ambiente eclesiástico. Nesse caso, a adoção da teologia pragmática pode ser percebida tanto no discurso, onde o evangelho é enfatizado pelos seus benefícios terrenos, quanto na metodologia de trabalho do próprio ministério, por meio de práticas focadas em números e resultados em detrimento dos verdadeiros princípios bíblicos.
Aparentemente, a visão de benefícios, funcionabilidade e resultados pode não representar qualquer nocividade à fé cristã, porém, a utilização dos ideais pragmáticos na pregação do evangelho representam – sim – grandes perigos ao ministério pastoral, tanto quando usado no discurso, bem como no que se refere à metodologia empregada.
 A importância da eficiência
Não podemos, é claro, desprezar a importância da prática em todas as esferas de atuação do homem. No casamento, na educação e na atuação profissional, por exemplo, existe uma série de considerações do ponto de vista funcional que realmente precisam ser levados em conta.
O princípio da eficiência entendida como o emprego dos meios necessários para se atingir determinado fim, é fundamental no desempenho das atividades vitais do ser humano, inclusive no espaço eclesiástico. Entretanto, a praticidade não pode ser o único ou o principal ponto a ser ponderado na realização de qualquer tarefa; e é exatamente aqui que a filosofia pragmática erra, empurrando para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”, sem considerar os aspectos morais, sociais e psicológicos que cercam o ato.
Dito isto, vejamos os perigos do pragmatismo, tanto no que se refere à pregação, bem como em referência à metodologia de trabalho:
 O perigo de considerar o Evangelho como produto e não como dádiva
Lourenço Stelio Rega, em artigo publicado na Revista Eclésia escreveu que “nestes primeiros anos do terceiro milênio, a fé cristã está entrando pelo mesmo principio básico da lei de consumo – obter as maiores recompensas por meio dos menores custos. E se não for possível conseguir as dádivas, busca-se por discurso compensadores que possam substituí-la”.
Nessas palavras é possível perceber um dos perigos contidos no discurso porque transforma o Evangelho em uma espécie de produto com vários benefícios àqueles que aceitarem a Cristo como Salvador. Esse evangelho de benefícios leva muitos a uma peregrinação de igreja em igreja, em busca daquela que lhe ofereça mais vantagens espirituais.
A nocividade em transformar o evangelho em produto é que isso gera uma falsa expectativa naqueles que foram para as igrejas em virtude das “propagandas religiosas”. Prometeram-lhes felicidade, milagres e bênçãos terrenas. Acontece, então, que após tempos e tempos de falsas promessas e benefícios não efetivados, pessoas há que desanimam da fé, da igreja e até mesmo de Deus; atribuindo a Ele o fracasso de suas vidas por não terem recebido a prosperidade que esperavam e que haviam prometido. O resultado são vidas: machucadas, feridas, apostatas da fé que criam escudos protetores. É o medo de serem enganadas novamente, de que tomem mais uma vez seu dinheiro em troca de promessas com as quais Deus nunca se comprometeu.
Ser cristão, levando em consideração somente os benefícios dessa vida não pode e nem deve ser o nosso principal alvo. Segundo a Bíblia, “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”.


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