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sexta-feira, janeiro 16, 2015

CULTO CRISTÃO COMO RECAPITULAÇAO DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

a) “Bastará uma leitura superficial do Novo Testamento para convencer-nos de que a própria vida de Jesus de Nazaré é, em certo sentido, uma vida litúrgica, ou, se preferir, sacerdotal”.
“Não nos é necessário entrar em mais pormenores. Basta que afirmemos que o Novo Testamento nos apresenta o ministério histórico de Jesus – e, por conseguinte, a sua vida inteira – como um processo litúrgico ou, melhor dito, como a liturgia, a vida de adoração propriamente dita, aceita por Deus. Neste sentido, o culto cristão tem por fundamento o “culto messiânico” celebrado por Jesus no período que medeia entre Sua encarnação e ascensão”. 
“Poder-se-ia indagar se a “liturgia” de Jesus de Nazaré – o resultado singular de ação expiatória, que já protegia o mundo antes da encarnação e agora frutifica no presente senhorio de Cristo – “considerada também como obra sacerdotal” – não alcançará sua suprema glória e plenitude no tempo da parousia”.
“A adoração da Igreja, portanto, tem uma dupla fundamentação cristológica: o culto celebrado pela vida, morte e glorificação do Cristo encarnado, e o culto celeste que, na glória, Ele celebra até ao dia do mundo vindouro. Entre esses dois atos culturais de recapitulação existe um liame não só teológico, mas também cronológico, embora o culto celeste não tenha as interrupções próprias do culto terreno, devido ao seu ritmo semanal. É o que se depreende do Apocalipse: mesmo no céu há um templo (7. 15; 11.19; 14.17; 15. 5, 8) e um altar (6. 9; 8. 3, 5; 9.13; 14.18; 16. 7) antes da vinda da nova Jerusalém na qual não haverá templo (21. 22)”. “((...) a questão – colocada por Barth e por Paquier e não admitida por Hahn – de saber-se há um fundamento cristológico para o culto no fato de que o culto da Igreja ilustra e atesta as duas naturezas de Cristo. Efetivamente não deve ser omitido o tratamento do problema (de resto altamente interessante) da pessoa do Cristo, que é o fundamento do culto porque é o ponto em que Deus e o homem se encontram e estabelecem união, assim como o culto é o encontro e a união entre Deus e o Seu povo)”.
2. A presença de Cristo no culto e a “epiklesis”
a)Jesus Cristo inaugurou a adoração da Igreja quando instituiu a celebração da Ceia do Senhor. Partindo o pão, disse Ele: “Isto é o meu corpo”. Semelhantemente, declarou que o cálice da nova aliança era o Seu sangue. Mais ainda, prometeu estar com os que são seus até o fim do mundo (Mt 28. 20) e estar no meio deles quando dois ou três estiverem reunidos em Seu nome (Mt 28. 20)”.
“Aquele que é o Pão da Vida que dá vida eterna (Jo 6. 51-58), se dá a nós e, suscitando e fortalecendo-nos a fé, nos atrai e une a Si. O meio principal mediante o qual Ele atesta a Sua presença são a proclamação do Evangelho e a comunhão eucarística: “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim” (Lc 10. 16); “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue”. A adoração cristã, portanto, é acontecimento de salvação”.
“A “epiklesis” litúrgica – cuja primeira manifestação é, talvez, a invocação “Maranatha – tem uma longa história. A partir do século II, a “epiklesis” começou a ser cada vez mais frequentemente dirigida ao Espírito Santo, para que viesse fazer do culto o ato de salvação prometido e esperado, e assegurasse aos fiéis a presença real e a comunhão do Cristo. Nos tempos apostólicos o Maranatha provavelmente também não era pronunciado no começo do ato de culto, mas sim no momento da celebração eucarística, embora se reconhecesse que Cristo estava presente desde o início da reunião.
“Assim colocada no lugar a ela reservada pela tradição ortodoxa, a “epiklesis” demonstra que, apesar de toda a glória de que se reveste (...), o culto não equivale ainda o Reino”.
3. O culto como recapitulação da história da salvação
“Vimos que o culto na Igreja só se torna possível porque Jesus Cristo ofereceu por seu ministério terreno, o culto suficiente e perfeito”.
“Não é o culto, mas sim Jesus Cristo o que recapitula, isto é, justifica e dá cumprimento à história da salvação, atribuindo-lhe razão de ser. No entanto, “recapitulare” significa, na linguagem mais comum, simplesmente “resumir”, “confirmar” ou ainda “repetir”. O termo é perfeitamente apropriado: o culto resume e confirma sempre de novo a história da salvação cujo ponto culminante se encontra na intervenção encarnada do Cristo. Tal recapitulação diz respeito à história da salvação tanto no sentido cronológico como no teológico”.
“O culto é, de início, anamnese (reminiscência, recordação) da obra passada do Cristo. Ao instituir a Eucaristia, isto é, o culto cristão, Jesus disse: TOUTO POIEITE EIS EMEN ANAMNESIN (I Co 11. 24s). A anamnese ou memorial (ANAMNESIS) (...), é algo muito diferente de um mero exercício da memória. É uma reatualização, uma reconstituição do passado de forma a torná-lo presente, e um compromisso. É nessa doutrina que se fundamenta também o rito pascal, o qual Êxodo 12.14 diz ter sido instituído Le-Zikaron, isto é, “por memorial”. Quando se trata da história da redenção, passado é atual”.
“Mas o culto, enquanto anamnese, não é somente “reatualização do passado”. Do ponto de vista dos celebram a memória da morte de Cristo, ele é ainda um engajar-se no serviço do Cristo, uma confissão de fé”.
“Mas o culto cristão não recapitula somente a vida, morte e ressurreição de Cristo, tornando-as novamente atuais e presente. De fato a história da salvação não se reduz a fatos meramente passados. Ela tem em si também algo que está por vir. Ao recapitular a história da salvação, o culto volta-se também para o futuro (...), é também antecipação ou antegozo do retorno de Cristo e do Reino que Ele então há de estabelecer”.
“Devemos mencionar uma terceira dimensão neste exame de recapitulação cronológica da salvação efetuada pelo Espírito Santo no culto. Não se trata somente do passado que se torna presente, e do futuro que já aflora na adoração”.
O culto é, por conseguinte, a recapitulação da história da salvação, na medida em que reatualiza o passado, antecipa o futuro e glorifica o presente messiânico. É exatamente por essa razão que se pode chamar o culto de um fenômeno escatológico”.
 “O culto cristão é a vanguarda daquele anseio cósmico de que fala São Paulo, daquela ânsia pela restauração de que Deus, em Seu amor, estabeleceu desde o início (Rm 8.18ss). Ele não restaura de modo evidente o Paraíso, nem força o aparecimento do Reino. Ele justifica a esperança e fornece as arras, propiciando o dia e o lugar em que o passado anterior à queda e o futuro posterior ao julgamento possam, um, perdurar ainda e, o outro, já irromper”.
“Mas o culto recapitula a história da salvação também no plano teológico. O que significa essa afirmação? Para responder a essa pergunta necessário se torna recordar de que elementos se constituem a história da salvação. (...) a história da salvação se constitui de uma revelação da vontade salvadora de Deus, de uma reconciliação que torna possível o cumprimento dessa vontade e de uma proteção que salvaguarda a eficácia dessa mesma vontade. A história da salvação, portanto, engloba três aspectos: profético, sacerdotal e real. O culto, então, recapitula a história da salvação na medida em que for profética, sacerdotal e real, em relação a Cristo, que é, que era e que há de vir. O culto, no qual é proclamada a Palavra de Deus, recapitula e resume tudo o que Deus nos ensinou acerca da sua vontade para o mundo. O culto, no qual se celebra a Eucaristia, recapitula e resume tudo o que Deus fez no sentido de reconciliar consigo o mundo”.
“Dentre todos os problemas de caráter sistemático que seria necessário examinar, menciono somente um, que é da mais alta importância, a saber, a relação entre o culto da Igreja e a continuação da história da salvação após haver esta atingido em Jesus Cristo tanto o seu ponto culminante como a sua plenitude”.
“Esse evento, que absorvera e se concentrara em si a história da salvação inteira, desde a expulsão do Paraíso até a manhã da Sexta-Feira Santa tem ainda de fazer-se sentir até ao fundo de sua eficácia, num processo que, entretanto, será interrompido antes do seu termo pela vontade de Deus de dar fim ao mundo”.

A história da salvação, portanto, continua de modo eficaz na forma de anamnese do seu evento central. Aquilo que uma vez aconteceu, na forma de substituição, em favor do mundo inteiro, agora se expande, pelo poder e pela operação do Espírito Santo, tornando-se realidade ontológica para os que se alegram com aquele evento primeiro e dele vivem. Pode-se por isso afirmar que o culto cristão é um dos agentes mais importantes da história da salvação. A história da salvação é continuada pelo culto (...). Essa é uma das razões por que ele é necessário. O culto é um instrumento de que o Espírito Santo se serve para desempenhar sua tarefa, para tornar eficaz hoje e agora a obra passada do Cristo e assim referir a essa obra, de maneira salvífica, os homens e os eventos de hoje, tornando-os beneficiários dela.

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